Pós-docs
Cidades travestis: a relação corpo e cidade na produção da urbe.
Bolsa CNPq
A pesquisa visa contribuir com o campo de estudos da antropologia urbana desde as epistemologias travestis. Trata-se de um desdobramento da pesquisa de doutorado que constatou os deslocamentos realizados por travestis que atuam nos mercados do sexo como uma forma de estar no mundo. O objetivo geral é investigar qual cidade é criada por essas travestis em constante deslocamento, destacando a relação entre o corpo e a cidade. O referencial teórico inclui tanto a produção de intelectuais travestis presentes em espaços acadêmicos quanto as interlocutoras com as quais mantive contato durante o trabalho de campo. Isso se junta à proposta de antropologia da cidade que considera as relações, contextos e práticas dos citadinos para a construção da cidade, negando a urbe como um espaço dado, aprioristicamente, natural e inato. Espera-se, com esta pesquisa, a produção de conhecimento sobre as práticas das pessoas na construção das cidades, a dinâmica e a influência dos deslocamentos na criação da cidade, os conhecimentos produzidos pelos corpos que vivem e produzem as cidades, as epistemologias produzidas nesses contextos e uma antropologia da cidade produzida por saberes não hegemônicos.
Acesso, permanência e ações afirmativas para pessoas com deficiência nas Universidades Federais brasileiras.
Este projeto visa analisar as políticas de acesso e permanência de pessoas com deficiência no ensino superior brasileiro, especialmente nas Universidades Federais, valendo-se das lentes teóricas proporcionadas pelos estudos do cuidado e das deficiências. O referencial teórico se desenvolverá através de um diálogo crítico com autores e autoras dos campos das deficiências, das ações afirmativas e das diferenças sociais. Propomos dados estatísticos provenientes do Censo da Educação Superior e outros dados estatísticos relevantes, legislações e regulamentações pertinentes. A abordagem do cuidado, com particular ênfase na noção de (inter)dependência, servirá como fio condutor desta análise, pensando acesso e permanência articulados com a centralidade das relações intersubjetivas no cotidiano institucional. A metodologia utilizada será composta por entrevistas semiestruturadas com gestores/as e pessoas usuárias da política, etnografia de documentos e dados estatísticos públicos sobre o tema. Os principais resultados esperados consistem em um mapa do estado atual das políticas de acesso e permanência nas IES Federais Brasileiras, com a possibilidade de apontamento da construção de caminhos possíveis para seu desenvolvimento. Pretende-se que, como impacto e relevância, a pesquisa possa contribuir com a análise crítica e aponte possibilidades de melhora para as politicas de acesso e permanência em voga.
Regime de Historicidade: genealogia, sentidos e usos de um conceito.
A pesquisa tem como escopo a genealogia, os usos e os sentidos (atuais e potenciais) assumidos pelo conceito de regime de historicidade, proposto pelo historiador francês François Hartog. O conceito possui duas diferentes matrizes: a primeira encontra-se no artigo "Marshall Sahlins et l'anthropologie de l'histoire" (1983) [Marshall Sahlins e a antropologia da história], publicado na revista Annales HSS, no qual, ancorando-se em trabalhos do antropólogo estadunidense Marshall Sahlins, busca-se a historicidade de um grupo a partir de pesquisa empírica realizada com o método etnográfico - ainda que o próprio Sahlins tenha se valido largamente de relatos históricos; a segunda tem lugar com o lançamento do livro Régimes d'historicité. Présentisme et expérience du temps (2003) [Regimes de Historicidade. Presentismo e experiência do tempo], em que se busca a historicidade de uma época por meio de fontes intelectuais, ou da perspectiva do "observador ocidental". Enquanto a segunda matriz teve larga audiência e repercussão, sobretudo entre historiadores, a primeira matriz passou despercebida por ocasião de seu aparecimento e, por fim, acabou sendo deixada para trás e esquecida. O que se ganhou e o que se perdeu com esse deslocamento, que no fundo é a passagem de uma Antropologia da História para uma História Intelectual?
Fazendo cabeças transfronteiriças: Intervenções capilares e a produção do gênero em salões de Tabatinga/Letícia/Santa Rosa
Essa pesquisa de pós-doutorado consiste em uma etnografia a ser realizada em salões de cabelo do complexo urbano transfronteiriço constituído pelas cidades de Tabatinga (Brasil), Letícia (Colômbia) e Santa Rosa (Peru). capitaneados por pessoas dos campos das feminilidades, masculinidades (cisgeneridades ou transgeneridades) e suas variações. A proposta é compreender as intervenções capilares como estabilizações estéticas de um conjunto de relações sociais e a pergunta central é, de que forma e a partir de quais técnicas, substâncias e saberes, essas intervenções podem ser entendidas como tecnologias de produção, estabilização ou desestabilização de gênero, de corporalidades e de pessoalidades.
Bolsa FAPESP
Partindo de reflexões sobre gênero instigadas por uma pesquisa etnográfica feita em parceria com o povo Araweté (Médio Xingu, PA), este projeto pretende voltar a atenção para o material de arquivo sobre os povos Tupi quinhentistas e seiscentistas. Rastreando o vocabulário de substâncias abundantemente presente nos relatos de viajantes e cronistas – informações sobre sangue, sêmen, cauim, puba etc. – buscarei evocar ecos de uma cosmopolítica em que corpos genderizados eram formados por atos voluntários, coletivos e densamente conceituados. Buscando revisitar o arquivo à luz de leituras contemporâneas, o objetivo é focar tanto nos rituais pubertários quanto em figuras que não se encaixavam na lógica binária colonial — as figuras transgênero “tebira” e “çacoaimbeguira”, as velhas “uainuy” e os jovens “panema” — para ensaiar novas formas de descrever gênero e sexualidade ali.
Família, política e relações raciais em Teresina-PI
Bolsa Capes Edital no 14/2023|PRAPG
A pesquisa, partindo de desdobramentos de pesquisas etnográficas que realizei com os movimentos de luta por moradia em São Paulo, pretende aprofundar algumas questões analíticas e propor novas abordagens sobre a territorialidade produzida em torno da Comunidade Boa Esperança, quilombo urbano localizado em Teresina-PI. Baseado na centralidade de família para pensar política já vista em pesquisas anteriores e na existência de um significativo contingente de pessoas negras que compõem a Comunidade, objetivo propor uma análise etnográfica sobre como política, família e raça se articulam nas socialidades da Comunidade Boa Esperança nas suas resistências a políticas de intervenção urbana.
Casas de Bambas: macumbas e carnavais em São Paulo
A pesquisa aborda sobre as tecnologias ancestrais que mantém a relação das redes de sociabilidades negras, entre elas as práticas festivas e religiosas, observadas na organização das escolas de samba de São Paulo. São expressões que se moldam a partir da relação de sambistas fundadores das mais antigas agremiações paulistas com os sambistas cariocas.
Apontamos que o ethos festivo que marca as religiões de matrizes africanas se espraia por outras dimensões da sociedade brasileira como nas artes (música, dança, pintura, cinema, literatura etc.) e nas festas, especialmente no carnaval. Assim, a experiência da religião, marcada por esta dimensão duplamente sagrada e lúdica, impregna o “sentido de mundo” dos adeptos que passam a conviver fora dela preferencialmente em espaços sociais que possibilitem a reiteração de “esquemas de sentido” (cosmopercepção) construídos na religião.
A arte de criar assemblages: materialidades e temporalidades entre curanderos e curanderas na costa norte peruana
Este projeto propõe um estudo da prática de curanderismo na costa norte peruana, mais especificamente em Lambayeque, a partir da abordagem conhecida como Etnografia Arqueológica, conforme proposta por Yannis Hamilakis (HAMILAKIS, 2011; HAMILAKIS; ANAGNOSTOPOULOS, 2009). Neste sentido, pretende-se explorar como os conceitos de materialidade e temporalidade se interseccionam nas práticas de curanderos e curanderas, que se dão a partir de agenciamentos de coisas/seres construídos pelos próprios Maestros curanderos.
"Cinema Amazônida": etnografia das representações fílmicas dos fazedores de cultura da Amazônia.
Bolsa FAPESP
No presente estudo, proponho uma reflexão epistemológica sobre a práxis audiovisual realizada na Amazônia Paraense, acompanhando as mobilizações e representações sociais de diretores fílmicos, com ênfase em documentários. Meu objetivo é compreender a construção estética e de conteúdo dessas produções, que valorizam aspectos específicos da chamada 'cultura regional' e suas identidades étnicas. Além disso, reflito sobre a categoria nativa 'cinema Amazônida', contribuindo para a discussão sobre a interculturalidade dos diretores dentro do contexto pesquisado.
Políticas de acesso à universidade e impacto no ativismo de mulheres negras
A pesquisa visa analisar o impacto das políticas de acesso à universidade, as contradições, tensões e disputas a respeito do que significam ser uma pessoa negra no espaço acadêmico e ter que repensar seu lugar social entre a academia e sua comunidade de origem. Buscar-se-á compreender as estratégias das mulheres negras para lidar com o racismo por parte de professores e colegas, o que torna, muitas vezes, o ambiente acadêmico um espaço hostil para a população negra. Por fim, objetiva-se analisar o grau de influência da passagem pela universidade no seu ativismo social, com intuito de compreender quais dinâmicas do ambiente universitário estiveram relacionadas (ou não) ao contato com o feminismo negro ou movimento negro (currículos e textos utilizados em aula, docentes, coletivos negro- feministas, movimento estudantil formal, etc.).
Das ruínas de álbuns fotográficos de família aos biomas de arquivos órfãos
Bolsa CNPq
A pesquisa investiga as “ruínas” (Tsing, 2019; 2022) dos álbuns de família, a destituição de seus ecossistemas de pertencimentos e a “sobrevivência” dessas imagens (Warburg, 2010; e Didi-Huberman, 2013) em contextos artísticos. O objetivo é abordar de modo antropológico a vida de fotografias de família, que encontram-se descartadas de álbuns e à margem de instituições familiares, em acervos "emergentes" tais como: ACHO-Imagens (Campinas, Brasil), Le Conservatoire National de l’Album de Famille (Metz, França), Found Photo Foundation (Londres-UK, Lisboa-PT) e Arab Image Foundation (Beirute, Líbano). A pesquisa realiza uma r eflexão epistemológica a partir de teóricos que problematizam a vida nas “ruínas” (Tsing, 2019; 2022), a “vida e as linhas” (Ingold, 2012; 2022), a “sobrevivência das imagens” (Warburg 2010; Didi-Huberman; 2013) e a “migração” (Warburg, 1932;2013; Lissovsky, 2023).
A Terra Verde e as Terras Raras: entre encantados e minérios
Bolsa FAPESP
Este projeto de pesquisa propõe uma investigação etnográfica das relações entre o povo Kiriri do Acré, a Terra Verde — como nomeiam a terra que habitam no sul de Minas Gerais — e o Projeto Caldeira de mineração de Terras Raras, conduzido pela empresa Meteoric Resources. A partir do contexto contemporâneo de expansão do extrativismo de minerais de transição, busca-se compreender como práticas de “grounding” e alianças entre humanos e outros-que-humanos constituem a territorialidade Kiriri e se tensionam frente às infraestruturas de deslocamento associadas ao empreendimento minerário. O estudo será orientado pela abordagem da ontologia política e pela atenção à emergência de conflitos ontológicos, tomando a equivocação como ferramenta analítica para explorar os desencontros entre os modos indígenas de habitar a terra e as racionalidades extrativistas. A pesquisa pretende contribuir para os debates sobre territorialização indígena, multiplicidade de mundos habitáveis e os impactos do extrativismo no Antropoceno.
“O legado de mestras e mestres ”: memória e criação nas artes marciais chinesas.
Bolsa FAPESP
Tenho buscado aproximar Antropologia e Sinologia desde minha etnografia das artes marciais chinesas em São Paulo. Em minha atual pesquisa, o interesse é pensar as concepções de criação no kungfu/taijiquan, atento ao modo como as diferenças e variações técnicas têm lugar nela, a despeito do argumento de parte dos estudiosos que defendem não haver o conceito de criação na civilização chinesa, pois que em suas artes imperariam processos de repetição, imitação e reiteração da tradição. Minha principal interlocução é junto ao Shàoshèng Centro de Cultura Oriental e sua comunidade pedagógica, a partir do qual a pesquisa tem seu ponto de dispersão para investigar a circulação e a produção da técnica e da memória – caminho que enseja a análise tanto das matrizes chinesas de seus estilos de luta, como também da composição dos inventários técnicos que são cultivados na cidade de São Paulo, a partir de conexões e peregrinações do Brasil à China e da China ao Brasil.
VIOLÕES EM REDE: Performance, ensino e construção de levadas em entrevistas musicais audiovisuais.
Este projeto de pós-doutorado investiga, sob uma perspectiva artística e antropológica, a construção e execução das levadas rítmico-harmônicas, com foco na prática e no ensino do violão no Brasil. Partindo do reconhecimento do violão como instrumento central na formação da música brasileira, a pesquisa busca compreender como se constituem e são transmitidos os saberes musicais incorporados pelos instrumentistas. A metodologia baseia-se em entrevistas musicais audiovisuais com violonistas que atuam como intérpretes, docentes e pesquisadores, integrando discurso verbal e performance como formas complementares de produção de conhecimento. Ao analisar o violão como prática musical, pedagógica e cultural, o projeto pretende ampliar a compreensão dos processos de aprendizagem e criação na música brasileira, contribuindo tanto para a pesquisa acadêmica quanto para o ensino do instrumento.
Pelas águas (e pelos tempos) do Rio de Leite
Este projeto retoma materiais etnográficos reunidos em duas expedições fluviais pelos rios Negro e Uaupés realizadas em 2013 e 2015 junto a um grupo de representantes dos povos Tukano, Desana, Pira-Tapuia, Tuyuka, Bará e Barasana. Essas viagens tiveram como finalidade captar imagens e registrar narrativas relativas a cerca de 70 lugares apontados nas histórias de origens desses povos ao longo do percurso. O objetivo é o de finalizar uma plataforma digital em construção (story-map) que irá disponibilizar o material, bem com, no processo, refletir sobre noções de tempo e espaço (e seus modos peculiares de articulação) que subjazem às narrativas compiladas, as quais operam uma imbricação complexa entre diferentes ciclos míticos e suas durações. Os resultados previstos deverão ser integralmente finalizados em um período de três anos, de modo que o estágio de posdoc a ser realizado no Departamento de Antropologia da USP será dedicado a uma fase inicial de revisão dos materiais e de um protótipo já disponível do story-map, bem como a finalização de um primeiro artigo que aprofunda as reflexões elaboradas abaixo no corpo do projeto.
Descanso negro: a criação de vidas e futuros possíveis entre mulheres negras a partir de práticas descanso
Durante o doutorado, confeccionei uma etnografia das práticas de cuidado naturais e de transmissão geracional que mulheres negras em contexto urbano de grandes cidades brasileiras mobilizam para refletir sobre futuro, cuidado e mercado da cura em seus cotidianos. Através de suas narrativas e de suas relações com plantas e ervas, compreendemos que essas práticas são formas de manutenção da vida e de produção de futuro. Em meio a regimes de governança sobre seus corpos, violências e racismo, elas também descreviam a dificuldade em descansar e o entendiam como fuga à condição de sujeição, o que, a meu ver, tensiona o debate contemporâneo sobre cuidado e justiça social. Neste projeto de pós-doutorado, proponho etnografar o descanso negro. Interessa-me a constituição de formas de vida em que o descanso opera como tecnologia de fuga, permitindo compreender dinâmicas que tornam possível o descanso entre mulheres negras. O foco recairá sobre práticas, narrativas e redes de sociabilidade, por meio de etnografia prolongada, atenta aos cenários cotidianos, aos afetos e a vínculos de intimidade que já possuo com algumas interlocutoras. Pretendo contribuir com novas perspectivas sobre a relação entre cuidado, sujeição racializada e descanso como tecnologia da vida e de fuga às opressões
Fúria e Cromo: Ciborguização e gênero na construção pós-humanista de Furiosa de George Miller
Bolsa Capes PIPD
Essa pesquisa propõe uma etnografia do/no cinema visando analisar dois filmes dirigidos pelo cineasta australiano George Miller, especificamente Mad Max: Estrada da Fúria (2015) e Furiosa: Uma Saga Mad Max (2024), inseridos no campo do cinema fantástico. Dando continuidade à minha pesquisa de doutorado sobre corpos femininos artificiais no cinema, pretendo investigar as conexões estéticas e temáticas desse recorte, levando-se em conta o que pode ser considerado uma proposta de cinema pós-humanista sobre o ciborgue. O pós-humanismo feminista questiona a rigidez estática e a naturalização de categorias, especialmente no que diz respeito a gênero, sexualidade e mesmo humanidade, movimento que é perceptível no recorte proposto. Buscando articular autoralidade, cinema, corpo, gênero e sexualidade, valho-me do campo de estudo da Antropologia do Cinema, partindo de uma perspectiva teórica feminista e queer para abarcar o objeto delimitado.
Pragmáticas Indígenas do Tempo: autobiografia, nostalgia ritual e acervos etnográficos como formas de reflexividade temporal
Bolsa FAPESP
Este projeto de pós-doutorado investiga como o povo Boe (Bororo), no sul de Mato Grosso, mobiliza diferentes imagens do passado e do futuro como formas de intervir no presente. A ênfase recai sobre uma pragmática do tempo: ou seja, sobre como imagens do tempo produzem efeitos concretos nas pessoas e coletividades que as acionam. O estudo se organiza em três eixos principais: (1) histórias de vida e a formação de lideranças indígenas; (2) lamentos rituais e modos de expressar e elaborar a nostalgia; e (3) arquivos digitais como tecnologias que transformam modos de narrar e experimentar a passagem do tempo. O projeto resultará também na criação colaborativa do Acervo Boe, sediado no LISA (Laboratório de Imagem e Som em Antropologia) da Universidade de São Paulo e acessível às comunidades indígenas. O acervo reunirá registros produzidos ao longo da pesquisa e materiais de outros etnógrafos. O projeto é um desdobramento de uma relação de pesquisa já consolidada na Terra Indígena Tadarimana, onde desenvolvi minha tese de doutorado sobre luto, ritual e temporalidade entre os Boe.
Entre gungas e gungas: um estudo etnomusicológico de saberes musicais
Trata-se de um estudo etnomusicológico com ênfase na utilização do audiovisual como ferramenta etnográfica e de produção de resultados (filmes). O ponto de partida são dois instrumentos bastante diversos que trazem a mesma denominação: a gunga, instrumento das tradições do catolicismo afro-brasileiro (Reinados, Congadas, Irmandades do Rosário, entre várias) e o gunga, berimbau de grande centralidade na arte da capoeira. A primeira parte do trabalho prevê pesquisas de campo junto às principais guardas de moçambique (denominação dos grupos em que as gungas são principalmente encontradas), a maioria delas situadas no estado de Minas Gerais. Este trabalho aponta também para a investigação das rotas afrodiaspóricas de motrizes sonoras em geral, iniciando com um estudo de caso particular como proposta focal, mas sem perder de vista as dimensões mais amplas dessas rotas e suas complexas demandas metodológicas de pesquisa.
“Terreirizar o Queer: Possibilidades e desafios para uma abordagem decolonial das sexualidades dissidentes nos terreiros”
A pesquisa propõe uma investigação teórica sobre a possibilidade de reformular a teoria queer se as experiências e epistemologias das religiões afro-brasileiras forem levadas em consideração. Embora a teoria queer tenha se tornado uma abordagem significativa para a desconstrução crítica das normas de gênero e sexualidade, suas definições fundadoras, enraizadas em epistemologias do Norte Global, ignoram interseções com raça, classe e colonialidade. Isso é especialmente relevante em espaços marginalizados, como aqueles dentro de comunidades religiosas de raízes africanas, onde atividades dissidentes estão envoltas em sistemas de racialização e resistência cultural. O projeto reconhece que esses espaços são locais essenciais de apoio e reinvenção subjetiva para corpos dissidentes e, assim, em alinhamento com suas epistemologias, a crítica à naturalização das categorias de sexo e gênero adquire novas camadas de profundidade e reformulação, ativando fundamentos não eurocêntricos. A pesquisa será realizada apenas por meio de revisão bibliográfica e análise teórica, promovendo assim um diálogo interdisciplinar entre teoria queer, pensamento decolonial e estudos sobre religiosidades afro-brasileiras, contribuindo para a construção de uma abordagem queer decolonial, atenta às especificidades brasileiras e ao conhecimento gerado no Sul Global.
No caminho do tropeiro: Relações e parentesco na síndrome de Li-Fraumeni no sul e sudeste do Brasil.
Bolsa FAPESP
A pesquisa pós-doutoral em andamento visa descrever e analisar as relações e os parentescos das portadoras e portadores da Síndrome de Li-Fraumeni- com destaque para a variante patogênica p.R337H TP53, mas não exclusivamente- membros da Associação da Síndrome de Li-Fraumeni do Brasil (LFSA). Relações, interações e genealogias estão no cerne desta pesquisa que busca conhecer múltiplas questões, tais como a de ancestrais, famílias e parentescos na Li-Fraumeni.
"Narrar a Própria Experiência: Cinema, Escritas de Si e Criação como Prática Social"
Este projeto de pesquisa tem como objetivo explorar as representações e negociações de identidade, ancestralidade e gênero nas produções cinematográficas turcas disponíveis na plataforma Netflix. Através de uma análise das narrativas cinematográficas, pretende-se examinar como esses filmes e séries abordam e retratam questões relacionadas à identidade cultural, ancestralidade e às dinâmicas de gênero. A pesquisa será conduzida em duas constelações de filmes: a constelação de filmes de fantasia (lendas) e a constelação de dramas, ambas com obras centradas em mulheres; das quais serão exploradas as estratégias narrativas, simbólicas e visuais empregadas nessas produções para representar e dar significado a esses aspectos.
Eduardo Coutinho: Etnógrafo
Esta pesquisa toma o cinema de Eduardo Coutinho como expediente paradigmático para o estudo de tendências mais gerais que se observa no documentário brasileiro pós-1960. Para tanto, explora a aproximação entre o cinema documentário e a prática etnográfica: um método modelar de abordagem da realidade social. A análise desta aproximação sustenta-se, inicialmente, na exploração de três modelos explicativos: o artista como etnógrafo em Hal Foster (1996); os elementos estético-formais na constituição histórica da antropologia em James Clifford (1986) e a análise do cinema documentário no Brasil nos enredamentos do golpe de 1964 em Jean-Claude Bernardet (1985). Retornar a Eduardo Coutinho significa revisitar um olhar original e disruptivo para aspectos cardeais da formação e constituição da sociedade brasileira, como também uma contribuição para a reflexão alargada sobre o filme documentário.
TESTEMUNHAS DO ETNOCÍDIO: Sobre imagens de indígenas por Edward S. Curtis e Sebastião Salgado
O projeto propõe a realização de uma comparação crítica dos projetos fotográficos “Indígenas da América do Norte”, desenvolvido pelo fotógrafo norte-americano Edward S. Curtis na virada do século 19 para o 20, e “Amazônia”, realizado pelo brasileiro Sebastião Salgado, cerca de um século depois. A trajetória dos dois personagens e seus trabalhos inclui diversas coincidências: estéticas, tais como o uso exclusivo de preto e branco; o objetivo de realizar o retrato urgente sobre culturas ameaçadas de desaparecer; os planos de produzir um registro de envergadura sem par quanto ao número de etnias e à quantidade de fotogramas e também quanto ao tempo dedicado ao seu desenvolvimento; também manifestaram ambos o desejo de produzir junto com as fotografias uma documentação com consistência etnológica; e por fim, ambos receberam críticas frequentes de estudiosos acadêmicos das sociedades indígenas que fotografaram. Ambos obtiveram grande impacto com seu trabalho cuja divulgação coincidiu com momentos de grande pressão sobre os povos indígenas dos países, com frequentes agressões que podem ser consideradas genocídio ou etnocídio.
"Queimadores do campo e fazedores de queijo": reverberações entre piropolítica e (agro e micro) biodiversidade na produção de queijos artesanais na Serra da Canastra
O presente projeto propõe examinar transformações relativas à emergência da política de manejo integrado do fogo na conservação ambiental brasileira, refletindo sobre a relação entre regimes de fogo antropogênicos e a produção alimentar. O trabalho será realizado em uma das Unidades de Conservação (UC) do Cerrado, o Parque Nacional da Serra da Canastra, no sudoeste de Minas Gerais, local marcado historicamente por conflitos entre a gestão da UC e famílias camponesas, que criam gado para a produção de leite e queijos, renovando os pastos através de queimadas. Ali está em implementação uma experiência de conservação socioambiental por meio do Manejo Integrado do Fogo (MIF), adotado em 2015 mediante acordo judicial. A pesquisa buscará analisar como a implementação pela gestão ambiental estatal de regimes de fogo conservacionistas reconfiguram os modos de queima tradicionais realizados na região e alteram, na perspectiva dos Canastreiros, a qualidade organoléptica do queijo Canastra, um alimento popular que tem seu modo de fabricação salvaguardado como patrimônio em diversos níveis estatais. Para tal, o estudo terá como base metodológica incursões etnográficas junto a famílias camponesas que, outrora proibidas de queimar, agora devem atender aos valores conservacionistas no uso do fogo estabelecidos pelo MIF, para renovar o pasto de suas propriedades. O problema que orienta a pesquisa consiste em compreender as reverberações entre piropolítica e (agro e micro) biodiversidade na produção de queijos artesanais.
SOBRE A ARTE DE FAZER DEUSES: COSMOTÉCNICAS DAS RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA NO BRASIL
Este projeto tem como objetivo realizar um estudo sobre os modos de criar e de fazer característicos das religiões de matriz africana no Brasil, buscando explorar uma teoria etnográfica da criação a partir da relação entre pessoas, coisas e deuses. Para isso, acompanhará o processo criativo de dois ferreiros de orixá, artífices ligados ao candomblé que se dedicam à produção das chamadas “ferramentas de santo”, artefatos característicos das religiões de matriz africana que, após serem feitos nas oficinas e “preparados” nos terreiros, tornam-se a expressão material dos deuses na terra.
“Antes foi árvore”: uma etnografia da vida social da madeira na fabricação de instrumentos musicais.
Bolsa FAPESP
A pesquisa investiga os efeitos das transformações materiais na fabricação de instrumentos musicais a partir de sua matéria-prima principal, a madeira, à luz da antropologia do som, da cultura material e da ecologia política. Parte da hipótese de que a substituição de espécies tradicionais por materiais alternativos não apenas altera aspectos técnicos ou estéticos desta classe de objetos, mas reconfigura regimes de valor associados ao timbre e à escuta, à autenticidade e à sustentabilidade. O projeto articula duas frentes: as trajetórias das espécies mais utilizadas e seus regimes de circulação e valoração no Brasil e nos Estados Unidos e um estudo de caso aprofundado sobre o jacarandá-brasileiro (Dalbergia nigra), espécie emblemática nas disputas entre patrimônio sonoro e conservação ambiental.
A investigação se apoia nos conceitos de valor sonoro (Oliveira, 2025) e sonológica material (idem) e repousa sobre o esforço de contribuir para os estudos da escuta, da materialidade e das práticas sonoras, lançando luz sobre os vínculos entre técnica, natureza e sensorialidade em tempos de preocupação socioambiental e reconfiguração das práticas musieais.
Cantar para conhecer o mundo: arte verbal nadëb e suas traduções
Bolsa Capes - Prêmio Capes de Tese 2024
O tema principal desta pesquisa de pós-doutorado é a arte verbal do povo Nadëb - e seus possíveis caminhos de tradução - observada a partir de uma perspectiva cosmoecológica. Trata- se de uma investigação sobre o papel de cantos e expressões verbais indígenas no sistema de relações interespecíficas que moldam a vida na floresta. A proposta é aprofundar a investigação iniciada em meu doutorado em Antropologia Social no PPGAS/Museu Nacional-UFRJ (Pissolati Lopes, 2023) acerca do repertório de cantos e fórmulas verbais xamânicas dos Nadëb do Alto Uneiuxi, que vivem numa região localizada no interflúvio dos rios Negro e Japurá, no Noroeste Amazônico brasileiro (AM).
O uso de elementos audiovisuais nos Estudos de Hip Hop/Rap: uma revisão de escopo desde à Etnomusicologia Audiovisual
Esta pesquisa tem como objetivo geral mapear – desde o campo da Etnomusicologia Audiovisual – a produção acadêmica de língua portuguesa, inglesa e espanhola - publicada até o ano de 2025 - que articula elementos audiovisuais, tais como filmes etnográficos, documentários, entre outros, no escopo dos Estudos de Hip Hop/Rap; e enquanto objetivos específicos: 1. identificar, analisar e sistematizar temas, autores, linhagens teóricas e/ou conceituais, métodos e/ou metodologias de dentro do campo da Etnomusicologia Audiovisual; 2. compreender os modos como o audiovisual tem sido empregado como ferramenta, método, dado ou linguagem de expressão etnográfica em pesquisas etnomusicológicas cujo fenômenos de estudo articulem relações com a cultura Hip Hop/Rap; 3. sistematizar abordagens metodológicas da Etnomusicologia Audiovisual, principalmente em articulação ao campo dos Estudos de Hip Hop/Rap; 4. reconhecer lacunas e potenciais direções para investigações futuras. O protocolo metodológico adotado segue o padrão mundial de revisões de escopo proposto pelo Joanna Briggs Institute (JBI), bem como o checklist PRISMA-ScR, cujo as etapas incluem: delimitação do problema e do PCC (população, conceito e contexto da pesquisa); levantamento e triagem sistemática de estudos em bases acadêmicas e fontes alternativas; extração de dados; categorização sistemática dos dados extraídos; análise crítica; e síntese narrativa dos resultados.
LENTES DA MPB: CRIAÇÕES DO “POPULAR” NA FOTOGRAFIA DE DAVID DREW ZINGG
Este projeto de pesquisa trata da produção visual do fotógrafo estadunidense David Drew Zingg (1923-2000) relacionada à música popular brasileira na década de 1960. O objetivo é investigar os nexos entre o uso de certas convenções visuais em fotografias de musicistas e compositores feitas por Zingg e a noção de "popular" (e termos correlatos como "povo" e "nacional-popular") em voga no período de difração da bossa nova e consolidação da chamada MPB (1962-1969). Conhecido pelo adensamento de questões estéticas e político-ideológicas na área da produção musical, esse momento específico da história brasileira engendrou também novos regimes de visualidade graças ao desenvolvimento e alcance dos meios de comunicação de massa. Apresentadas e representadas em imagens postas em circulação em capas de discos e revistas ilustradas, formas inéditas de retratar a corporalidade de artistas de gerações e estilos distintos informavam e eram informadas, a um só tempo, pelo debate acerca do "popular" e da "defesa" dos valores nacionais. Embora prolífica e inseparável do impacto da MPB na sociedade brasileira, a produção visual de David Zingg - que atuou em revistas de grande tiragem como a carioca Manchete e a paulistana Realidade - permaneceu à sombra se comparada à volumosa quantidade de análises de álbuns e canções ou de trabalhos de caráter histórico-sociológico. Partindo de interesses distintos, este projeto dá primazia às imagens do fotógrafo no intuito de enfrentar a noção de criação presente em certos estudos sobre a MPB, em geral amparada na cisão entre criatividade e técnica, e centrada no impasse entre a massificação cultural e as formas musicais ditas "autênticas". Ao apostar nas contaminações entre música e imagem na configuração do ideário "nacional-popular" vigente nos anos 1960 no Brasil, pretendo expandir a noção de criação de modo a contemplar a produção de corporalidades e objetos, bem como repensar dicotomias flagrantes desse período, tais como arte vs. publicidade, originalidade vs. imitação, nacional vs. estrangeiro.
Caatinga como espaço de criação: memória e ecologia no semiárido pernambucano.
Bolsa FAPESP
Diante da erosão dos solos, de quadros crônicos de seca e de pontos crescentes de desertificação em muitas localidades do Nordeste, busco analisar em minha pesquisa atual como a memória dos viventes da Caatinga age de maneira criativa e criadora frente à degradação ambiental. Mais especificamente, o meu objetivo é analisar como a memória de vaqueiros e criadores de Floresta, município do semiárido pernambucano, preserva, cria e revitaliza as suas relações com o bioma Caatinga. Em proveito de uma perspectiva ecológica de memória, a hipótese é que a Caatinga, mais do que um bioma de circunscrição geográfica e identitária do Estado nacional, é um espaço de e para a criação de mundos. Por essa via, os aspectos mnemônicos e ecológicos da socialidade sertaneja podem contribuir com alguns debates ambientais da antropologia contemporânea, entre eles, o “fim do mundo”, o Antropoceno, as mudanças climáticas, os estudos “multiespécies” e suas relações com o parentesco, além de contribuir para a antropologia da memória e para a antropologia rural brasileira.
Viagem, espionagem e etnografia: Uma análise dos relatos de Ármin Vámbéry sobre a Ásia Central
Essa pesquisa analisará a construção de descrições sobre as populações da Ásia Central em um contexto de práticas de espionagem relacionadas as demandas imperiais por informações estratégicas, na conjuntura de disputa geopolítica entre o império britânico e o império russo, na dinâmica que ficou conhecida como O Grande Jogo (The Great Game). Nesse sentido, a pesquisa buscará compreender como as descrições da Ásia Central feitas por viajantes e exploradores consistia em uma necessidade estratégica para o exercício da gestão de rotas e fronteiras entre populações locais. A análise estará centrada na questão da existência de uma dinâmica epistemológico-política nos relatos e documentos do viajante húngaro Ármin Vámbéry (1832-1913), que trabalhou para o império britânico. Nesse quadro, o foco da atual pesquisa é estudar os relatos de Vámbéry, no sentido de compreender como tais relatos se posicionam frente aos modelos antropológicos vigentes à época sobre a Ásia Central.
Territórios Existenciais, Territórios Visuais: uma Etnografia através de Imagens
Bolsa FAPESP
Ao trabalhar com os artistas inga Uaira Uaua, Carlos Jacanamijoy, Kindi Llajtu, Rosa Tisoy, Tirsa Chindoy e Nestor Jacanamijoy, do Vale de Sibundoy, no sul da Colômbia, aprendi que tudo o que faz parte da existência possui um caminhar. Por meio de um caminhar, a criatividade flui e dá muitas coisas, como plantas e quadros. Também aprendi a vislumbrar as obras de meus interlocutores como parte de territórios existenciais, percorridos através de pegadas (cor/textura), desenhos (percursos) e linhas (caminhos). Através de uma cartografia de fotos e desenhos, este projeto visa seguir conexões entre imagens e territórios existenciais (com) que elas compõem. Espero que tal exercício possa servir como forma de “mostrar a etnografia” (Caiuby Novaes, 2014) ou, ainda, pensar o tipo de território existencial que habilita a observação antropológica e o que se torna visível ali.
Territórios Existenciais, Territórios Visuais: uma Etnografia através de Imagens
Bolsa FAPESP: Processo 2020/13113-1
A pesquisa deu seguimento ao trabalho realizado com os artistas inga Uaira Uaua, Carlos Jacanamijoy, Kindi Llajtu, Rosa Tisoy, Tirsa Chindoy e Nestor Jacanamijoy, do Vale de Sibundoy, sudoeste da Colômbia, em busca de evidenciar e experimentar o papel do desenho e do desenhar para as práticas e o registro etnográfico. Noções de desenho aprendidas e exercitadas em campo encontram traduções como amarrar (uatai, simbai) e “amarrar pegadas”, caminhar (purij) e kilkay, e dizem respeito a modos de estabelecer conexões a partir dos quais se torna possível contar a “própria história” (yuyay kaugsay) e estabelecer uma discussão sobre a história e os tempos (kutijkuna e pachakuna) pelos quais a vida inga flui. A partir da elaboração em torno dessas noções, foi possível repensar a presença do desenhar na formação de territórios existenciais que habilitam a observação antropológica e o que se torna visível através dos desenhos e das palavras que os trazem à tona; “mostrar a etnografia” (Caiuby Novaes, 2014).
Resistir e celebrar: ativismos LGBTQIA+ nos carnavais de rua de Belo Horizonte e São Paulo
O projeto investiga as relações entre o ativismo LGBTQIA+ e o carnaval de rua no Brasil, com foco nas cidades de São Paulo e Belo Horizonte. A pergunta central busca saber se as estratégias políticas observadas nos blocos paulistanos — como o uso da festa, da ocupação do espaço público e da celebração como forma de resistência — se verificam em Belo Horizonte. A principal hipótese aponta que, apesar de cada cidade apresentar características sociais e culturais próprias, há semelhanças nas formas de organização e expressão política dos blocos LGBTQIA+. O objetivo é compreender como esses coletivos se articulam, ocupam as ruas e reivindicam políticas públicas. A metodologia combina análise documental, observação participante e entrevistas semiestruturadas, adotando uma abordagem etnográfica multissituada, que permite comparar as experiências e estratégias de ativismo LGBTQIA+ no carnaval de rua dessas duas capitais do sudeste brasileiro.
DE NÈGRE FONDAMENTAL A L’ÉCORCHÉ VIF DA NEGRITUDE: uma biografia de Léon-Gontran Damas e suas redes intelectuais, políticas e afetivas (1949–1978)
Bolsa FAPESP
Léon-Gontran Damas, guianense, foi celebrado como o primeiro poeta da Négritude e consagrado por Aime Césaire como le nègre fondamental. Também chamado de le rebelle e l’enragé, tornou-se um dos mais contundentes críticos do colonialismo e da política assimilacionista francesa. Mas foi igualmente lembrado como o homme écorché vif da Négritude — expressão que sintetiza o apagamento histórico e o ostracismo que marcaram sua trajetória intelectual e política. No entanto, ao longo de toda a sua vida, Damas manteve-se incansável na tarefa de promover, estimular e publicar a obra de autores negros. Este projeto propõe a elaboração de uma biografia que ilumine as redes transatlânticas de sociabilidade articuladas por Léon-Gontran Damas, mapeando seus vínculos afetivos, intelectuais e políticos transnacionais, especialmente, no Brasil. O núcleo empírico da pesquisa é a coleção inexplorada Léon-Gontran Damas Papers (1949–1978), conservado na New York Public Library, que reúne documentos pessoais, correspondências, manuscritos, fotografias, vídeos, arquivos administrativos, notas e materiais de pesquisa. Esse conjunto abre novas possibilidades de interpretação para a trajetória intelectual, política e afetiva de Damas. A originalidade desta proposta está em mobilizar o acervo documental produzido por Damas para revelar conexões ainda pouco exploradas — sobretudo com intelectuais brasileiros — e, assim, oferecer uma narrativa inédita e mais complexa de sua vida e obra.